Campanha decorre entre 21 e 27 de abril e é a primeira do ano exclusivamente dedicada aos utilizadores mais expostos ao risco nas estradas
A Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR), a Guarda Nacional Republicana (GNR) e a Polícia de Segurança Pública (PSP) uniram esforços numa operação conjunta que arranca esta segunda-feira e se prolonga até domingo. O alvo é claro: reduzir o número de atropelamentos e acidentes graves que, nos últimos três anos, ceifaram centenas de vidas em contexto urbano.
Sob o mote “Na estrada, todos somos vulneráveis”, a iniciativa enquadra-se no Plano Nacional de Fiscalização (PNF) 2026 — um programa anual com 11 campanhas temáticas alinhadas com a estratégia europeia Visão Zero 2030, que visa erradicar a mortalidade rodoviária até ao final da década. Esta é a quarta campanha do ano e a primeira voltada exclusivamente para peões, ciclistas e utilizadores de trotinetas elétricas e outros dispositivos de mobilidade pessoal.
Os números que justificam a urgência
Os dados oficiais são pesados. Entre 2022 e 2024, cerca de 25 mil utilizadores vulneráveis estiveram envolvidos em acidentes com vítimas em Portugal. O resultado: 421 mortos e 1.626 feridos graves — mais de um quinto de toda a sinistralidade grave registada no país. Os peões concentram a maior fatia, com 327 vítimas mortais e 1.126 feridos graves. Os ciclistas somam 94 mortos e 500 feridos graves no mesmo período.
A esmagadora maioria destes acidentes não acontece em autoestradas ou estradas nacionais de alta velocidade. Acontece ao virar da esquina: 73,5% dos acidentes graves com peões e 60,5% dos que envolvem ciclistas ocorrem dentro de localidades e em estradas secundárias, nas imediações de passadeiras, cruzamentos e zonas de tráfego misto.
O que vai ser fiscalizado
As operações da GNR e da PSP incidem nos locais de maior circulação de utilizadores vulneráveis — passadeiras, cruzamentos, ciclovias e zonas partilhadas. A fiscalização abrange todos os intervenientes: condutores, peões e utilizadores de dispositivos de mobilidade pessoal.
Do lado dos condutores, a atenção recai sobre a não cedência de passagem em passadeiras, o excesso de velocidade em meio urbano, as ultrapassagens sem a distância mínima de segurança de 1,5 metros e as manobras sem verificação dos ângulos mortos. O estacionamento sobre passadeiras — infração frequente e particularmente perigosa — também está no radar das autoridades.
Quanto a peões e ciclistas, a campanha lembra que atravessar fora das passadeiras, ignorar semáforos, circular em contramão ou em passeios de forma indevida, e andar distraído com telemóvel ou auscultadores são comportamentos que aumentam substancialmente o risco de acidente grave. A ausência de iluminação e equipamentos de visibilidade nas bicicletas e trotinetas é outro ponto de atenção.
Sensibilização em paralelo com a fiscalização
A campanha não se esgota nas multas. A ANSR desenvolve em simultâneo ações de sensibilização dirigidas ao público em geral, com foco nos comportamentos de risco mais frequentes no quotidiano urbano. A lógica é complementar: a fiscalização penaliza quem infringe, a sensibilização procura mudar hábitos a prazo.
As autoridades sublinham uma mensagem que perpassa todo o PNF 2026: a sinistralidade rodoviária não é inevitável. A maioria das mortes e ferimentos graves nas estradas portuguesas resulta de comportamentos corrigíveis — e essa correção depende de todos os que partilham o espaço público, independentemente do modo de transporte.


