Um professor do Instituto Politécnico de Leiria esteve no Palácio de Belém para apresentar ao Presidente da República um conjunto de medidas destinadas a tornar as comunicações portuguesas mais robustas face a fenómenos climáticos extremos. Rafael Caldeirinha, investigador do Instituto de Telecomunicações, foi um dos mais de vinte especialistas convidados a participar num encontro promovido por Marcelo Rebelo de Sousa para recolher contributos técnicos sobre prevenção e resposta a catástrofes naturais.
A reunião surgiu na sequência da Presidência Aberta nas regiões do Centro do país, onde as recentes intempéries deixaram exposta a fragilidade das infraestruturas de comunicação. Para além de especialistas em telecomunicações, o encontro reuniu vozes das áreas da energia, ambiente, proteção civil, infraestruturas e clima.
Fragmentação como principal vulnerabilidade
Na sua intervenção, Caldeirinha identificou as fragilidades estruturais do sistema nacional de comunicações: a dependência energética das infraestruturas, a vulnerabilidade das redes de fibra ótica em situações extremas, as limitações das redes móveis quando mais são necessárias e, sobretudo, a fragmentação de um sistema que funciona sem coordenação nem visão integrada.
“A evidência demonstra que os principais constrangimentos não decorrem da ausência de tecnologia, mas da falta de integração, planeamento e governação técnica estruturada”, afirmou o docente.
Redundância, roaming de emergência e fim dos pontos únicos de falha
Entre as medidas propostas, o professor do Politécnico de Leiria defendeu o reforço da autonomia energética das infraestruturas críticas e a implementação de redundância multi-tecnológica — com integração simultânea de fibra, rádio e satélite. Propôs também a ativação de mecanismos de roaming nacional em situações de emergência e a eliminação de pontos únicos de falha na arquitetura nacional de comunicações.
O objetivo é passar de uma lógica reativa — em que as falhas só são corrigidas depois de acontecerem — para uma abordagem preventiva, assente na antecipação de riscos, na realização de testes regulares e na mitigação sistemática de vulnerabilidades.
Academia no centro das decisões
Um dos pontos mais relevantes da proposta foi a criação de um modelo de governação técnica que inclua, de forma contínua e vinculativa, a comunidade académica e especialistas independentes no ciclo de vida do sistema de comunicações — desde o planeamento até à auditoria e evolução das redes. Para Caldeirinha, esta integração é uma “condição essencial para aumentar a resiliência das comunicações em Portugal”.
A proposta contempla ainda a criação de um Modelo Nacional de Resiliência das Comunicações, com monitorização contínua, auditorias técnicas periódicas e um processo sistemático de melhoria.
“A resiliência não é um conceito abstrato, mas uma responsabilidade pública que exige método, continuidade e capacidade de decisão”, sublinhou o investigador.
IPLeiria e Instituto de Telecomunicações na definição de políticas nacionais
A presença de Rafael Caldeirinha no encontro presidencial reforça o papel do Instituto Politécnico de Leiria e do Instituto de Telecomunicações na definição de soluções estratégicas para o país. A participação da academia em espaços de decisão pública sobre infraestruturas críticas representa um sinal de maturidade institucional e de aproximação entre o conhecimento científico e as políticas nacionais de segurança.



